Durante a mudança do mobiliário do antigo Destacamento Policial Militar (DPM) do Bairro da Penha para um outro, novinho em folha, ao lado, encontramos quatro pastas recheadas de fotografias de criminosos, não só da região do Bairro da Penha e de seus entornos, mas também de vários outros bairros da Grande Vitória. Ao manusear aquela antiguidade, foi inevitável uma viagem através do tempo. Criminosos antigos, alguns atuantes há 25, 30 anos, quando ninguém falava em facções criminosas, pelo menos em terras capixabas.
Após 30 anos enfurnado na atividade policial, mais notadamente em regiões periféricas, concluo ter perpassado por pelo menos três mutações perceptíveis no perfil do crime e do criminoso. Parece muito tempo, mas, quando construímos uma linha histórica, esse lapso temporal assusta pela velocidade. Sair da era dos assaltos a banco, quando o tráfico de drogas ainda engatinhava, para a exploração da área de influência à base do fuzil foi um pulo. Quer ver? Vamos dar uma viajada.
Quando ingressei na PMES, em 1995, ainda prevaleciam os crimes contra o patrimônio, principalmente os grandes assaltos a banco, embora o tráfico de drogas estivesse em franca ascensão. O perfil do criminoso apresentava um padrão fácil de descrever. As “referências” alcançavam mais idade e possuíam um código de conduta muito bem estabelecido, desenvolvido inicialmente para regrar a sobrevivência nos presídios. Nessa época, por sinal, o sistema carcerário capixaba era o pior do Brasil, em que esquartejamentos e rebeliões violentas eram rotina. Daí surgiu a coisa do “sujeito homem”, a “palavra que não se tira”.
Com a adoção da porta giratória automática nas agências bancárias, em 2006 ou 2007, zeraram-se os assaltos à mão armada, adiantando o processo de migração da criminalidade para o narcotráfico. Inaugura-se, então, a era das facções, do assistencialismo e da caridade promovida pelos “paizões” donos de morro.
A violência contra o morador reduz em um dado momento, dando lugar ao alinhamento por simpatia. Afinal de contas, o traficante passou a substituir o Estado em vários momentos: aplacando a fome, providenciando remédio nos momentos de dor e promovendo alegria com festas gigantescas. Importante registrar o processo gradativo de redução da idade dos criminosos.
Sem um marco exato, entramos em uma terceira era do crime, por volta de 2017, 2018. Gradualmente, de forma quase imperceptível, criminosos cada vez mais jovens alcançam funções de soldado “responsa”, os faixas-pretas, aqueles que botam a mão no fuzil, e de lideranças intermediárias. A cumplicidade é substituída pela violência na relação com a comunidade, afinal de contas, o território passa a ser o objetivo.
Dominar, ampliar fronteiras, subjugar, impor o silêncio pelo pavor: essas são as ferramentas utilizadas para pavimentar o caminho em busca das novas “fontes de renda”. Extorsão, agiotagem, fornecimento de TV a cabo; taxas em serviços essenciais, como o fornecimento de gás. Aos poucos, o tráfico vai dando lugar a crimes mais seguros para o faccionado. Afinal de contas, o próprio morador passa a ser a sua fonte de renda. Como o pobre sofre calado e a sociedade, por sua vez, pouco se importa com ele, o crime agradece e enriquece.



