Algo que se tornou frequente nesse país é o uso do eufemismo, que vem a ser o processo de suavização de uma ideia, tornando menos “agressivo” um termo ou informação. Esses dias, ao assistir a uma dessas gincanas de final de ano promovida por uma grande empresa do ramo de saúde, ouvi quando um dos participantes se referiu ao bom e velho “Cabo de Guerra” como “Cabo de Força”. Como assim? Imediatamente, a minha memória afetiva foi vilipendiada, ferida de quase morte, principalmente pelas boas lembranças das Olimpíadas do Batalhão de Missões Especiais (BME), oportunidade em que o Cabo de Guerra era a competição mais aguardada.
Não se trata de rabugentice de velho ou mesmo posição reacionária intransigente, e sim um incômodo com essa aparente hipersensibilidade moderna. Tudo é ofensivo, agressivo, preconceituoso. O encarcerado que passou a “preso”, “detento”, depois “presidiário”, “reeducando” e agora é “pessoa privada de liberdade”. Essa amenização, esse amortecimento na forma de tratamento não mudou em nada a realidade, continuamos na mesma, com os índices de reincidência criminal lá nas nuvens, batendo na casa de 70%.
O menor, da mesma forma, saiu de “menor infrator” para “adolescente em conflito com a lei”. Mais suave, né? Oferece a falsa imagem de um jovem com suas dúvidas próprias da idade, em conflito… o fato de esse dilema existencial ser com a lei é mero detalhe, e coitado de quem disser o contrário. Cunhar novas palavras passou a ser um dos esportes mais praticados nesse país das jabuticabas.
Temos um “descondenado” no poder. Palavra inexistente, inventada especialmente para caracterizar um camarada que foi condenado em várias instâncias e agora não deve rigorosamente nada à nossa justiça nada cega. Chamar um usuário de maconha de “maconheiro” talvez lhe renda até um processo atualmente. A forma correta, polida, educada, é “usuário recreativo”. Afinal de contas, um baseado para relaxar merece ser suavizado, quem se importa com o fato de a maconha ser uma das portas de entrada para o inferno da dependência química quando ela mesma já não faz as honras da casa e destrói o cidadão sem precisar de apoio das demais.
Mas, ao meu ver, “comunidade” é o termo mais polêmico e covarde do ponto de vista da suavização instrumentalizada pelos “iluminados”, além de ser convenientemente adotada pelos criminosos que parasitam nossas periferias. Explico: quando o faccionado está “propondo o jogo”, ameaçando, colocando em prática seus atos e ações narcoterroristas, o nome utilizado é o da própria facção.
Agora, quando o bastão muda de lado e as forças de segurança contra-atacam, sai de cena o nome da facção e entra a palavrinha mágica: “comunidade”. O escudo perfeito para os facínoras, convenientemente endossado por movimentos sociais, políticos de esquerda, artistas e toda sorte de alienados e “usuários recreativos” da elite social.
Me parece um darwinismo social às avessas na medida em que busca eliminar o justo, o correto, o trabalhador, o equilibrado, o resiliente; em detrimento do fraco, com a sua musculatura emocional debilitada bloqueando o enfrentamento das questões controversas de frente; aquele que optou pelo crime, pelo consumo de drogas, pela imoralidade. Francamente, tenho muito orgulho e agradeço por estar no catálogo da espécie que será extinta.



