Como fui criado dentro de uma igreja evangélica, inicialmente a minha percepção da maldade humana foi instrumentalizada pela visão judaico-cristã, baseada no embate entre Deus X Diabo, aquela coisa do Céu e Inferno, maldade e bondade. Habitava em mim a certeza de que os meus entes mais próximos eram “de Deus”, estavam do lado certo.
Resumindo, era feliz e não sabia. Esse encanto foi se quebrando na medida em que fui avançando com meu peão no tabuleiro do jogo da vida e percebi que a maldade está pulverizada em todos nós, em maior ou menor intensidade, nessa ou naquela área específica, e o mais assustador: sendo muitas vezes relativizada e normalizada por quem a pratica.
O dito popular “a maldade está nos olhos de quem vê” é conveniente a fim de ilustrar o “maldômetro” que cada um carrega, desenvolvido a partir do seu repertório de vida, sua genética, harmonizado ou não com os códigos de conduta comuns à sociedade na qual está inserido. Ou seja, para alguns, manter um cão amarrado no quintal em uma corrente de 1,5m é algo normal, uma vez que não lhe falta alimento ou água, mas para grande parte da sociedade é um ato de extrema maldade. Já para outros, roubar no orçamento de um serviço é justo, sabendo que o cliente é rico e nem irá perceber. Fazer um gato de luz, repassando o peso para aqueles que pagam honestamente, não é maldade, e sim esperteza para outros, e por aí vai.
O imperador romano Marco Aurélio dizia que a bondade é uma pequena chama que cada um carrega, com a missão de garantir combustível suficiente para que ela não apague. O tal combustível nada mais é do que a paciência, o equilíbrio mínimo que nos põe um freio evitando que esgoelemos o primeiro trapaceiro maldoso que cruze o caminho. Eu, particularmente, por tudo que já vi nessa vida, fecho com o Thomas Hobbes, que acreditava que o “homem é lobo do próprio homem”. Em tradução livre, nascemos mal e, ao longo da nossa existência, vamos adquirindo traços de bondade e virtudes na tentativa de subverter essa ordem, algo que nem todos querem, claro.
O psicólogo cognitivo Morten Moshagen desenvolveu uma ferramenta chamada de fator D, voltada especificamente para medir a maldade humana. Ela é composta por nove traços sombrios pontuados de acordo com o grau de comportamento perverso e agressivo. São eles: egoísmo, maquiavelismo, ausência de ética e senso moral, narcisismo, direito psicológico, psicopatia, sadismo, interesse social/material e malevolência.
O primeiro refere-se à preocupação excessiva com os próprios desejos. Maquiavelismo define o manipulador ardiloso e frio na busca dos seus interesses. Já o direito psicológico diz respeito a sentir-se merecedor de mais direitos do que os outros. A psicopatia, por sua vez, reúne um combo que une baixa empatia, insensibilidade, mentira e déficit afetivo. O sadismo é sentir prazer em infligir dor no outro, qualquer que seja a natureza dela. O interesse social e material está presente naqueles que buscam por vantagens o tempo todo, querer ser o centro das atenções. E, por fim, a malevolência, que é a preferência por fazer o mal, seja por agressão, abuso, roubo, humilhação, trapaça.
E aí, houve identificação com um ou mais fatores? Ou você está no time daqueles que relativizam as maldades de “estimação”, a famosa síndrome de Gabriela? “Eu nasci assim, eu cresci assim, e sou mesmo assim, vou ser sempre assim…”.
De uma coisa não tenho dúvidas, o desejo insano que move o ser humano na busca pela porção de felicidade sempre maior em relação ao outro, como se fosse possível mensurá-la com precisão matemática, ignorando solenemente as questões ligadas à individualidade, é a gema da maldade, a sua mola propulsora. Trapacear, roubar, ameaçar, conspirar, espancar, matar… todos os verbos que remetem a algo mal, têm o condão de diminuir, vencer, subjugar o próximo. A necessária cruzada individual contra a maldade passa pela autoanálise, um verdadeiro inventário moral a fim de desnudar sem melindres suas maldades de estimação, inclusive debelando ou pelo menos amenizando o instituto da revanche, da vingança. Como diria Nietzsche: “Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para também não se tornar um monstro.” Quando se olha muito para o abismo, o abismo olha para você.”
Por Everton Moraes Concha.

Colunista Ten. Moraes – @moraespontaum
👮🏼♀️Tenente da PMES
🗣️Palestrante
👮🏼♀️Especialista em PAAR e Organizações Criminosas do ES.
🗣️Colunista/ Site PONTA DE LANÇA




2 Comments
Bom dia,parabéns, o ser que mata pela espada ,morrerá pela espada..
Mateus 26:52
Parabéns Moraes pelo ensaio, em sua coesão e querência com as citações.
Ao fim, retorna a propositura judaico/cristã na proposta feita no Éden, conhecer o bem e o mal.
É de se pensar que inserido neste limite: comer ou não comer, estaria o castigo ” conhecimento do mal”, que por consequência aumenta assustadoramente em tempo muito curto, na história Genesiana.