De meados de abril até início de junho desse ano, pelo menos três carretas populares foram envolvidas em acidentes automobilísticos no Espírito Santo. No último deles, dia 03/06, uma carga de cerveja foi furtada por dezenas de pessoas imediatamente após o tombamento de uma carreta que trafegava pela rodovia Leste-Oeste, em Vila Velha.
Mesmo com o motorista ferido, carros e motos foram imobilizados na via e seus ocupantes, homens e mulheres, correram desabalados a fim de garantir sua parte no que foi exposto pelos danos ao baú e cargas do veículo acidentado. Tudo isso registrado em imagens e sob os olhares de policiais que nada puderam fazer. Isso explica muito de uma sociedade que, ao mesmo tempo em que normaliza condutas criminosas dessa natureza, praticadas por cidadãos “idôneos”, reivindica a máxima retidão e honestidade dos outros.
O malabarismo moral muito peculiar ao brasileiro é algo tão complexo que seria impossível analisá-lo em tão poucas linhas. Mas, uma coisa posso assegurar, não se pode creditar tal característica à nossa raça, ou mesmo à mistura delas; nem tampouco àquela balela de que fomos iniciados por bandidos e degredados.
Se houvesse lógica nessa matemática, a Austrália seria uma espécie de Sodoma e Gomorra, uma vez que foi destino de condenados britânicos no seu período colonial.
A rica e próspera terra dos cangurus dos dias atuais teve seus longos anos de presídio, de depósito de rejeitáveis.
Chegamos a um ponto tão insuportável de relativismo moral, que só de ouvir a frase “jeitinho brasileiro” tenho vontade de espraguejar nomes que até o Capeta fecharia os ouvidos.
Glamoriza-se a trapaça; o “dar a volta no outro”; ser esperto “furando” a ordem de qualquer coisa em que esteja para trás; privilegiar-se de amizades e contatos para alcançar benefícios imerecidos; etc.
A justificativa? O excesso de burocracia somado à ineficácia do sistema legal, dois parceiros inseparáveis no quesito “como afundar um país”.
No livro “Por que as Nações Fracassam”, de Daron Acemoglu e James Robinson, os autores analisam a trajetória de dezenas de nações ao redor do mundo, buscando justamente o diagnóstico do que determinaria o sucesso ou o fracasso de um povo. A conclusão é a de que um evento crítico em algum momento da história muda o curso para cima ou para baixo, para o sucesso ou para o fracasso enquanto país. Tal evento não necessariamente é uma guerra ou revolução, pode ser uma liderança que adote uma estratégia econômica ou posição política em um momento crucial.
O nosso parece ter sido a falta de prioridade no desenvolvimento humano lá nos primórdios, quando outras nações já se preocupavam com a democratização da alfabetização e o acesso ao conhecimento.
Nos Estados Unidos, por exemplo – país escravocrata como o Brasil -, já na metade do século XIX a alfabetização era obrigatória, muito provavelmente obra de alguém que vislumbrava a importância desprezada pela maioria, ou seja, o evento crítico não necessariamente é uma série de medidas, basta um bem-intencionado com o poder e a caneta na mão no momento certo.
Fazendo uma analogia especificamente sobre a situação do nosso amado país, que sofre atualmente por equívocos aparentemente irrisórios cometidos lá atrás no seu passado histórico, seria como um navio que sai de um continente com um erro de apenas 5 graus na rota, algo que parece insignificante, mas que representa centenas de km de diferença na chegada no continente de destino.
Por Everton Moraes Concha.

Colunista Ten. Moraes – @moraespontaum
👮🏼♀️Tenente da PMES
🗣️Palestrante
👮🏼♀️Especialista em PAAR e Organizações Criminosas do ES.
🗣️Compartilhando verdades e algo mais.



