Lamento lhe informar, amigo, o mundo passa longe de ser justo. É claro que alguns secretários do Capiroto, enviados diretamente das profundezas, conseguem piorar essa certeza na medida em que temperam com bastante sal grosso a vida de outros seres humanos.
Quando uso a palavra injustiça, em se tratando das relações sociais, incluo nesse pacote toda a sorte de trapaças, impropérios, e não somente aquela ideia de reciprocidade não atendida que a palavra remete.
Vou dar um exemplo: um belo dia, por volta das 07h30min, eu e minha digníssima seguíamos para o trabalho quando fomos surpreendidos por uma dessas “motinhas” tipo Scooter. A piloto, que certamente não pesava mais que 50 kg, pensando na morte da bezerra, quase colidiu na lateral do meu carro em uma interseção ainda dentro do bairro onde moro. Numa ação instintiva, taquei a mão na buzina, mas, para a minha surpresa, além de não se desculpar pelo mal feito, ela ergueu o braço direito, estendendo o dedo médio e retraindo todos os outros, naquele sinal que qualquer habitante desse Planeta Azul conhece. Não satisfeita, tomou a frente, reduzindo bem a velocidade, com o claro objetivo de me irritar.
Até hoje reflito se não seria apenas mais uma desequilibrada ou uma militante do “não acabou, tem que acabar, pelo fim da Polícia Militar…”, uma vez que eu estava fardado. Não fiz rigorosamente nada contra ela, apenas aguardei o momento em que consegui ultrapassá-la, finalizando aqueles momentos de injustiça.
Um sapo gigante e verruguento ficou entalado na minha goela por pelo menos uns dois dias, mas acredito que fiz a coisa certa. Diante de tamanha injustiça, optei por uma das duas dificuldades que se apresentaram. A primeira seria abordá-la, certamente travando uma calorosa discussão e saindo como o vilão; afinal de contas, um policial careca, com cara de mau, oprimindo uma pobre moça com corpo de criança, seria a imagem da covardia. Preferi então abraçar a segunda dificuldade, aguardando que aqueles minutos de injustiça se dissipassem, seguindo para o meu dia de serviço com o prejuízo moral na algibeira.
Esse é o ponto, você sempre terá que escolher entre duas dificuldades, mesmo quando aparentemente o objeto em análise é considerado bom. Fazer atividade física é difícil, mas não fazer trará dificuldades na sua velhice, ou até antes; trabalhar é difícil, não trabalhar ou morcegar no serviço trará dificuldades; morar sozinho é difícil, mas continuar morando com os pais sem liberdade também é difícil; engolir um sapo no trânsito é difícil, mas sair na porrada será difícil. Como é injusta essa vida.
Estar o tempo todo entre duas dificuldades é o combustível para o mau humor, para a agressividade. O processamento inconsciente, instintivo, é a regra. Como ele consome menos energia, é priorizado pelo cérebro em detrimento da razão, da consciência.
Nossa massa cinzenta acredita estar nos poupando de gastos desnecessários ao nos jogar no ringue de UFC, por isso recomenda-se contar até 10, ou 100… justamente para permitir que a consciência entre em campo com os seus freios e contrapesos, nos salvando do famoso “Por que eu fiz isso?”.




