A prisão do MC Poze do Rodo por apologia ao crime e a Lei “Anti Oruam” reacendem o debate sobre os bailes Mandelas e os funks classificados como “proibidões”.
Enquanto alguns defendem e enxergam como manifestação cultural esse aparato inegavelmente instrumentalizado pelo crime organizado, outros tantos se arrepiam diante do relativismo moral que beira a demência.
Afinal de contas, quem está certo? Existe certo ou errado nessa disputa de razões completamente antagônicas? Essa repressão seria mais um artifício engendrado por uma elite branca contra uma juventude negra marginalizada?
A fim de habilitar a sua mente, leitor, em busca de uma resposta genuína, convido-o para a prática de um exercício muito simples desenvolvido pelo filósofo americano John Rawls, chamado de “O véu da ignorância”.
Por um instante, esqueça suas próprias características. Dispa-se completamente de classe social, gênero, raça, talentos, crenças políticas e ideológicas, enfim, zere o seu HD mental. Agora receba a seguinte situação hipotética: você é o pai de um adolescente de 17 anos que solicita a permissão para ir a um baile Mandela, evento clandestino realizado sem as devidas autorizações do poder legalmente constituído.
O local de realização do evento é uma região conflagrada pelo tráfico de drogas faccionado, o que significa que as forças de segurança pública não estarão presentes. O MC que irá cantar, muito famoso por sinal, tem algumas músicas que enaltecem nomes da alta gestão da facção que controla o crime na região, mencionando ainda como portar armas e atirar em inimigos e nas polícias. Drogas e bebidas são consumidas livremente em meio a indivíduos com armas que só vemos em guerras pelo mundo afora.
As leis formais, aquelas estabelecidas e fiscalizadas pelo poder constituído, não existem lá, o que resta são as normas que emergem da cabeça do “Dono do Morro” a cada segundo, de acordo com o seu humor, é claro.
Por conta disso, um esbarrão em quem não deve ou até ser assediado por uma nativa “amarrada” por um faccionado, pode render de uma surra até a morte em um local específico, próprio para a execução da “pena”.
Agora me responda, lembrando que está sob o véu da ignorância de Rawls: Você autorizaria a presença do seu filho nesse evento?
Esse cenário pode ser classificado como uma manifestação da cultura popular? Não o gênero musical, que é apenas um simples pano de fundo, mas as letras, podem ser enquadradas como expressões culturais?
Tenho certeza de que os pais do jovem Kauan Galdino Florêncio Pereira, de 18 anos, morto com um tiro na cabeça em janeiro desse ano no RJ após pisar no pé de um traficante em um Mandela, têm a resposta.
Por Everton Moraes Concha.

Colunista Ten. Moraes – @moraespontaum
👮🏼♀️Tenente da PMES
🗣️Palestrante
👮🏼♀️Especialista em PAAR e Organizações Criminosas do ES.
🗣️Compartilhando verdades e algo mais.




1 Comment
Parabéns meu nobre amigo,fico feliz por ter esse conhecimento, concordo em tudo que pautou.