Iniciei minha atividade na segurança pública em 2008, quando a Guarda Municipal de Vitória começava a se consolidar como instituição de segurança pública. Vivíamos entre a falta de investimento e a dúvida permanente se “daria certo”. Os gestores, em sua maioria, eram indicações políticas toscas, e a pasta de segurança pública funcionava como feudo de algum político que fazia o que bem entendia.
O cenário era de atraso técnico em toda a sua plenitude:
- Veículos defasados (estou falando de Uno Mille);
- Armamento igualmente ultrapassado (revólver calibre .38 com apenas seis munições);
- Uniformes pesados e quentes;
- Bases improvisadas em prédios municipais em desuso;
- E cursos de cunho político-ideológico, cujo propósito real era o convencimento político, não a qualificação profissional.
Muitos dos que ingressaram nesse período se adaptaram rapidamente a esse modelo de gestão. Descobriram que, se seguissem a cartilha, estariam sempre orbitando o poder. Era a configuração clássica do atraso técnico, sustentado por uma lógica de lealdade pessoal e não institucional.
Os tempos, porém, mudaram. A Guarda Municipal de Vitória conquistou seu espaço com trabalho, dedicação e pela clara necessidade social de um novo modelo de fazer segurança. Gestores de verdade assumiram a pasta e os avanços se tornaram nítidos: hoje trabalhamos com viaturas que oferecem conforto e segurança ao profissional; uniformes de qualidade superior no sentido de conforto e utilidade operativa; utilizamos equipamentos e armamentos de ponta no mercado nacional; investimos na formação, enviando nossos profissionais para diversos estados do país, em contato com alguns dos melhores quadros da segurança pública.
Seria o cenário ideal, não fosse um novo e perigoso inimigo: o atraso moral.
Esse atraso se manifesta quando gestores indicados têm pouco ou nenhum compromisso com o crescimento institucional e passam a usar o cargo como palanque pessoal, distribuindo favores e benefícios para um pequeno círculo de aliados. É o momento em que a lógica da autopromoção se sobrepõe à lógica do serviço público.
O exemplo é simples e devastador: quando um gestor indica alguém para uma função relevante e essa pessoa comete um erro grave, mas o erro é varrido para baixo do tapete, toda a moral desse gestor diante do efetivo é comprometida. A mensagem enviada é cristalina: a proteção política vale mais do que a responsabilidade, e a lealdade pessoal pesa mais do que a ética profissional.
Diante disso, o gestor perde a capacidade de liderar aqueles que colocam a moral à frente dos próprios interesses. Esses profissionais, que deveriam ser a base de qualquer instituição séria, passam a se afastar da gestão ou a atuar com descrença. E é nesse vácuo que ressurgem, com força, os velhos personagens: servidores que aprenderam a orbitar gestores ruins e que se movem exclusivamente por interesses pessoais. Eles voltam à cena fazendo o que sempre fizeram: atos de proteção pessoal, acordos de conveniência, composições silenciosas.
O resultado é cruel. A instituição, que deveria se fortalecer justamente quando alcança um patamar técnico mais elevado, começa a perder poder perante aquilo que deveria combater. O criminoso percebe o ritmo que está sendo dado; entende quando a casa está dividida, quando a prioridade deixa de ser o interesse público e passa a ser o jogo interno de poder. O progresso material, antes conquista celebrada, começa a declinar, porque a base moral que o sustentava é corroída.
Para o cidadão comum, a percepção também muda. A mesma instituição que um dia foi vista como forte, profissional e em ascensão, passa a ser percebida apenas nos lampejos “instagramáveis” de ocorrências cotidianas, cuidadosamente selecionadas para gerar boa imagem. Vende-se um recorte, não a realidade.
E assim, pouco a pouco, como uma árvore que definha na seca, a instituição resseca por dentro, não mais pela falta de viaturas, de armas ou de cursos, mas pelo atraso moral que a assola. O maior risco, hoje, não é a precariedade técnica, mas a normalização de práticas que colocam a conveniência acima da consciência.
Quando o atraso é moral, não se perde apenas eficiência. Perde-se alma institucional. E reconstruir estrutura é fácil; reconstruir caráter é outra história.

Colunista Thiago Reis – @thiagoreisraio16
Liderança e Estratégia em Segurança Pública Instrutor de Técnicas Operacionais – Tiro | Segurança Pública | Inteligência | ROMU
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