Há muitos anos, eu e outros dois policiais estávamos de serviço quando recebemos a informação de que três homens estariam no interior de um coletivo intermunicipal, portando armas de fogo. Após embarcarmos no ônibus quase vazio, realizamos a abordagem dos três suspeitos no último banco, não foram localizadas armas de fogo. Em dado momento, ao cruzar o olhar com o cobrador sentado na sua cadeira, um impulso permeado por certezas que não sei de onde brotaram, levou-me a lançar mão em sua cintura, sacando um revólver calibre 38. Imediatamente, um dos meus parceiros que estava ao lado do motorista fez o mesmo, sacando uma pistola calibre 380. Ambos, obviamente, “segurando” as armas para os criminosos, aqueles mesmos que estavam no fundão.
Por segurança, esta história que escolhi guarda um imenso lapso temporal, uma vez que os garantistas intransigentes podem questionar: cadê a fundada suspeita nessa abordagem ao motorista e cobrador? Lembrando que fundada suspeita são elementos objetivos que chancelam uma abordagem policial, tais como: volume na cintura indicando uma possível arma de fogo, o que naquela situação de fato não havia.
Mas aí entra em campo algo tão precioso para a atuação policial quanto polêmico: o tirocínio policial. Ele sim foi a mola propulsora nesta e em outras várias ocorrências ao longo da minha carreira.
Em outras profissões, o tirocínio é sempre bem-vindo, é ele o responsável por materializar uma espécie de sexto sentido lastreado pelas experiências anteriores, somadas à experiência do momento. O médico de Londrina que colou o coração de um paciente com a cola super bonder, salvando a sua vida, agiu certamente tomado pelo seu instinto, pelo seu tirocínio, sendo merecidamente aclamado como herói.
Já para os policiais, tal habilidade foi estigmatizada e equivocadamente lançada na vala comum dos estereótipos e preconceitos, mutilando a missão precípua das polícias. O fato é que as ciências policiais, mesmo a contragosto de alguns, trazem a reboque essa capacidade extra-sensorial de “enxergar sem ver”. São respostas que saltam de dentro para fora quando um policial experiente está diante de uma tomada de decisão, é impossível desatrelar o tirocínio policial da boa técnica.
Mas ainda há esperança, uma vez que a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu em decisão recente (13/05/2025) a legitimidade da intuição policial, ou seja, o tirocínio policial como fundamento para a abordagem, desde que amparada em critérios objetivos e treinamento técnico.
Mesmo ainda sufocado pela necessidade imperiosa da presença dos critérios objetivos, um volume na cintura, uma ação dissimulada, etc. É nítida a evolução no entendimento jurídico acerca desse tema, algo tão importante e ao mesmo tempo tão difícil de ser descrito e circunstanciado.
Por Everton Moraes Concha.

Colunista Ten. Moraes – @moraespontaum
👮🏼♀️Tenente da PMES
🗣️Palestrante
👮🏼♀️Especialista em PAAR e Organizações Criminosas do ES.
🗣️Compartilhando verdades e algo mais.




5 Comments
Obrigado professor pelo conteúdo.
A sociedade precisa enxergar os heróis.
Força e honra.
Brasil.
Em primeiro lugar, é fundamental ressaltar que as polícias não devem ser vistas como algozes da segurança pública, mas sim como garantidoras da ordem pública. Uma abordagem policial nem sempre tem como objetivo prender alguém em flagrante delito. A prática cotidiana da atividade policial demonstra que, para garantir a ordem em meio a tanta desordem, o conceito de tirocínio policial se amplia, indo muito além de situações pontuais. O simples fato de um indivíduo ser preso mais de 30 vezes pelas forças de segurança evidencia o comprometimento dessas instituições, que, mesmo sem o devido reconhecimento, carregam o peso das falhas provocadas por sucessivos desgovernos.
Excelente conteúdo carregado de verdades e de significados. Parabéns..conteúdo de valor! Deus abençoe sempre o tirocínio policial do sr e dos demais policiais do Brasil! Afinal de contas, o resultado fala por si só!
Muito obrigado meu grande e lendário irmão.
Meus parabéns, a cada dia você surpreende com seus conhecimentos, fico feliz por vc meu amigo