Em 2014, a crônica policial capixaba perdia um dos seus maiores e mais folclóricos representantes, o jornalista Pedro da Silva Maia, ou simplesmente Pedro Maia. Figurinha fácil nos redutos boêmios e apaixonado pela sua bucólica Barra do Jucu, assinou na década de 90 a coluna diária Cidade Aberta, no jornal A Tribuna. Ao folhear o jornal, a coluna do Pedro Maia era sempre a primeira parada. Com uma linguagem do bom malandro, alcançava com facilidade o coração do povão com os seus “causos” e histórias do cotidiano capixaba.
Dentre as várias publicações, recordo-me bem de uma que contarei agora. Como não a encontrei em seu formato original, com todo o talento do grande Pedro Maia, ousei fazer uma releitura da forma como ficou retida na minha memória. Substitui nomes e locais, porque o que importa é o “causo” “pedroniano”. Vamos lá então para o “Neguinho Vingador”:
Em um certo bairro da Grande Vitória, banhado pelo Oceano Atlântico, onde a vida segue a passos lentos, talvez por conta das múltiplas belezas a serem contempladas, residia um Sargento aposentado da Polícia Militar. Sujeito duro, de poucos sorrisos, ostentava um grande bigode negro e o rosto marcado pelas rugas próprias de uma vida pouco dormida e estressante. Conhecido pela forma “carinhosa” com que tratava vagabundos durante os seus serviços na radiopatrulha, Pereira agora só queria viver em paz, curtindo o que lhe restava de vida após sobreviver por 30 anos no combate à criminalidade violenta. Nosso herói anônimo mantinha rotina diária imutável, cujo ápice era uma sesta de 30 minutos após o almoço. O sono reparador de Pereira era cumprido em uma rede de casal instalada na varanda de entrada da residência, na mesma parede onde a gaiola com o seu canário de estimação estava acomodada.
Certo dia, ao despertar de sua soneca reparadora, Pereira recebe em sua retina calejada de toda sorte de registros de violência protagonizados pelos seres humanos, algo inimaginável, desafiador, uma verdadeira afronta: um corpo esguio de aproximadamente 1,60m e pés descalços, trajando apenas uma bermuda surrada, retirava suavemente a gaiola com o seu canário de estimação do suporte onde estava pendurada. Em um único pulo, o velho combatente saltou da rede, batendo de pé, ao mesmo tempo em que emitiu um urro, como se estivesse abordando dez marginais armados no alto do morro em que trabalhava. Ato contínuo, agarrou o pequeno larápio pela bermuda, praticamente o erguendo do chão, para logo em seguida imobilizá-lo com os dois braços para trás. Os gritos desesperados de “não me bata, pelo amor de Deus”, que outrora seriam música para o ouvido do veterano combatente, despertaram um sentimento incomum em Pereira, que passou a repreender o criminoso: “Olha só, neguinho, você deve me conhecer e saber da minha fama, mas não vou lhe quebrar no pau, só dessa vez, hein, então sugiro que nunca mais pratique crimes por essas bandas, senão já sabe…”. Logo após a admoestação verbal de forma enérgica, Pereira ordena que o larápio suma – correndo, claro – certo de que a sua fama e a sua voz de trovão já eram substitutas adequadas à surra que o neguinho deveria ter levado.
No outro dia, às 05h30min, no início do ritual diário, quando acordava e saía na varanda para dar as primeiras despreguiçadas, Pereira teve uma nova e desagradável surpresa. A sua gaiola com o canário de estimação já não se encontrava pendurada no local habitual. Esfregando a cara como se não acreditasse, Pereira observou um papel espetado justamente no suporte do produto furtado. Ao abri-lo, constatou que se tratava de um bilhete construído com garranchos quase que ilegíveis, onde se lia: “Ae, seu comédia, quem paga sugestão é padre. Assinado: Neguinho Vingador.”
E assim o grande Pereira foi relembrado de uma máxima reverberada no meio policial: “Nunca perca a fé no ladrão”.
Obrigado, grande Pedro Maia!!!
Por Everton Moraes Concha.




