A execução covarde do delegado da Polícia Civil de SP Paulo Ruy Ferraz Fontes na noite do dia 15/09/2025 no município de Praia Grande-SP pode ser classificada tranquilamente como “o puro suco do Brasil atual”. Somos uma nação prostrada de joelhos diante do monstro chamado Organizações Criminosas. A história do Dr. Ruy, desde o seu ingresso na Polícia Civil paulista no final da década de 80, até ser alvejado por diversos tiros de fuzil, dá o tom exato do que acontece com aqueles que ousam enfrentar as facções ou cartel – no caso específico do PCC.

Logo no início da sua carreira, Dr. Ruy demonstrou rara competência ao reduzir os roubos a banco no estado de São Paulo, crime que era uma verdadeira epidemia naquela época. Com o surgimento do Primeiro Comando da Capital (PCC), destacou-se em ações e investigações que atingiam diretamente o PCC, dentre elas a identificação e desmobilização de várias centrais telefônicas, prejudicando sobremaneira a articulação entre os criminosos. Com atuação destacada, o Dr. Ruy passou a ser alvo de ataques oriundos do próprio governo. Em 2006, foi o responsável pela transferência de lideranças como o próprio Marco Herbas Camacho, o Marcola, líder máximo do PCC, para o Presídio de Presidente Venceslau. Durante a CPI do narcotráfico, em uma tentativa frustrada de descredibilizá-lo, foi acusado de corrupção pela defesa de Marcola. A partir daí, o deslocaram para a 69ª DP na região de São Mateus, bairro de SP considerado um dos Quartéis Gerais do PCC. O Dr. Ruy afirmava que a perseguição se deu por conta da identificação de ligações entre membros do governo e os faccionados. Só em 2019 se tornou delegado-geral da Polícia Civil, cargo que ocupou até 2022, justamente na época em que as grandes lideranças do PCC foram transferidas para presídios federais.
“Se atravessar o meu caminho, nunca será esquecido”, é a mensagem transmitida pelos faccionados por intermédio de um atentado dessa natureza. Mais uma vez vemos escancarada a fragilidade daqueles que se opõem ao crime organizado nesse país acometido por um câncer incurável. Há informações de que fora empregada na ação a chamada “sintonia restrita” do PCC, uma espécie de Operações Especiais do Cartel.
Se aqueles que dedicaram a vida ao combate à criminalidade não receberem qualquer contrapartida do ponto de vista de proteção efetiva, com “prioridade máxima” e penas rigorosas para os que porventura ousem investir contra eles, não podemos sequer cogitar um início de retomada das rédeas dessa nação. O que temos hoje é a normalização da condição desfavorável na relação entre polícias e criminosos. Ser ameaçado, trocar tiros com criminosos em ocorrências consideradas como corriqueiras e ter que alterar completamente a sua rotina diária, passou a integrar um pacote fechado e previsível da profissão. Naturalizou-se algo que deveria ser duramente atacado por todas as esferas de poder, cada qual com sua competência. Enquanto isso for apenas “problema de polícia”, fragmentos simbólicos da sociedade estarão dentro de todo caixão de policial assassinado.




