“As crianças são o futuro da nação!!!”. Partindo de um ponto de vista darwinista, temporal, trata-se de uma obviedade. Claro que irão crescer e assumir os postos humanos que nos cabem nessa engrenagem chamada Universo. Agora, acolhendo a frase pela perspectiva da evolução, do crescimento no campo do bem viver, da boa condução da sociedade em que nos encontramos e que será herdada pelas crianças de hoje, tenho cá as minhas dúvidas. Afinal de contas, de uma forma geral, como as nossas crianças estão sendo moldadas para a assunção desse compromisso?
Por vezes, o livro em branco chamado “Crianças” é escrito e gravado por profissionais dedicados à doutrinação política e ideológica nas escolas. Uma filosofia freiriana que, de forma equivocada, confere uma “igualdade” entre alunos e professores. Já não há aquela barreira simbólica entre quem ensina e quem aprende, chegando ao cúmulo de professores se verem na condição de reféns em sala de aula. O prejuízo, muitas vezes irreparável, conta com a anuência de pais que terceirizam tacitamente a construção moral dos seus filhos, em troca do “ter” imposto por uma sociedade de consumo. Escola não substitui pais. Na verdade, a escola deveria manter-se firme na missão de ofertar o ensino formal (matemática, português, história…), limitando-se a complementar as virtudes e princípios instituídos em casa e na igreja.
Não restam dúvidas de que a família estruturada — deixando claro não se tratar de dinheiro — é a base para a construção de um ser humano apto a contribuir para a coletividade na qual está inserido. Dos vários estudos que comprovam tal afirmação, destaco aquele conduzido pelo psicólogo Marshal Duke. A pesquisa buscava aferir o impacto das memórias familiares sobre o bem-estar das crianças, criando a escala “você sabe? ”. Trata-se de um questionário contendo 20 perguntas do tipo: você sabe onde os seus avós cresceram? Você sabe onde o seu pai e sua mãe estudaram? Você sabe a história do seu nascimento? Duke concluiu que as crianças que sabiam da sua história familiar tinham maior autoestima, controle sobre as suas próprias vidas e resiliência. Saber de onde viemos ajuda a fortalecer um senso de pertencimento e autodeterminação. A depreciação proposital de valores outrora consagrados, a falta de boas referências e a fragilidade percebida no controle da norma, ou seja, posso fazer quase tudo que “não dá nada”, são alguns dos venenos ministrados em doses cavalares à nossa juventude.
Recentemente, ao realizar patrulhamento a pé pelo alto do morro São Benedito (área de influência da facção criminosa Primeiro Comando de Vitória), próximo à escola de ensino fundamental Paulo Roberto Vieira Gomes, recém-reformada e com tudo o que há de mais moderno no quesito estrutura física, ouvi crianças gritando para nós: “Limão doze! ”. Explico: Limão é um dos pontos do morro utilizados pelos traficantes para a vigilância em relação à presença da polícia, e doze faz referência direta ao PCV. Exatamente a forma como os criminosos se comunicam via rádio. Muito triste constatar que, na ausência de referências positivas e família minimamente estruturada, o futuro da nação está comprometido. O crime agradece.




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Triste realidade. Opinião de quem vê na prática. Excelente texto.