Nostalgia pode ser entendida como uma mistura de saudade e benquerença por momentos, pessoas e acontecimentos passados. Enquanto a saudade acrescenta aquela pitada de dor no tempero nostálgico, as lembranças estimadas adoçam, promovendo um sentimento agridoce. No dia 24/10/25, completei 30 anos de Polícia e a danada da nostalgia avançou como um trator. Nesses últimos dias, por várias vezes puxei a própria orelha corrigindo-me, agradecendo pela minha caminhada, contradizendo o cérebro insistente em sua afirmação categórica: “o passado era melhor”. Nessa crônica irei me permitir divagar, encontrar coisas boas que vivi na lida profissional. Certamente muitos não irão concordar, mas evoco a liberdade oferecida pelo editor e o fato de ser um quase veterano, uma espécie de inimputável fardado para ferir os ouvidos pudicos alheios.
Então vamos lá, trinta anos atrás… Os Destacamentos Policiais Militares (DPMs) dos morros eram equipados com celas, isso mesmo, pode acreditar. Às vezes deixávamos um brigão bêbado algumas horas nas grades até que a cachaça passasse. A ameaça de ser apresentado à cela do DPM já era um elemento dissuasor de badernas e desordens.
Quantas vezes determinamos a parentes que avisassem ao suspeito de um crime, agressor ou baderneiro, para que se apresentasse no DPM, e pasmem, eles iam. A certeza de ser encontrado caso não o fizesse e a dor que isso iria lhe causar eram a motivação necessária para o cumprimento da ordem; palavra de PM era lei na comunidade. Não havia plano de carreira, as equipes eram compostas por um ou outro Cabo, Sargento, e o resto Soldados. Como não existiam perspectivas de progressão vertical na carreira, apenas nos divertíamos. Não havia brigas ou inimizades geradas por disputas de vagas a graduações acima. Celular e computador eram artigos de luxo, para ricos. Sabíamos das novidades no bar do Clube Caxias entre uma cerveja ou outra; era lá que encontrávamos policiais de outros batalhões e atualizávamos os “causos”.
Carabina calibre doze, metralhadora calibre 9mm e revólver calibre 38 compunham o nosso limitado arsenal. Importante salientar que a calibre doze ainda assumia o papel de cassetete, com sua linda coronha de madeira (todas frouxas por conta disso). O “golzinho quadrado”, um verdadeiro patrimônio tombado da PMES, recebia os presos em seu pequeno porta-malas. Nunca vi um deles que não coubesse, diga-se de passagem. Nele ainda iam parturientes, acidentados e alienados mentais; não existia SAMU 192 e os Bombeiros só atendiam casos extremos, todo o resto era conosco e o nosso poderoso calibre 38.
Consertar viatura ou mesmo construir e reformar espaços, por vezes, era feito por nós mesmos. Recordo-me da laje da antiga 3ª Cia (atual 1ª Cia do 1º BPM), que “batemos” em um mutirão de policiais, devidamente encerrada com uma festa, claro. Tudo terminava em festa, tínhamos prazer em estarmos juntos. Quando viam um de nós em qualquer ambiente, os criminosos tinham a certeza de que teria outro, ou outros, mesmo de folga.
Encerro aqui o meu reivindicado salvo-conduto de inimputável fardado, homenageando por intermédio de dois professores a todos que ombrearam comigo ao longo dessa caminhada. Meu compadre Sargento Renato e o meu irmão e xará Cabo Moraes, que Deus os tenha. Muito obrigado por tudo, grandes “andadores de escadas”.





2 Comments
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Meu amigo você está de parabéns, fico feliz pelos seus 30 aninhos de briosa, falta pouco para o tão sonhado descanso,grande abraço.
Muito bom, meu irmão. Desejo que a vida continue sendo prazerosa e longa, e que mais experiências notáveis inundem sua mente, para que, no futuro, novas “nostalgias” lhe inspirem.
Que Deus lhe abençoe sempre.
Abraço!