Além de ser uma ave exuberante com características bem peculiares, como a capacidade de reproduzir sons e até mesmo imitar a fala humana, o papagaio guarda uma estratégia de sobrevivência pouco conhecida. No seu habitat natural, a ave evita demonstrar fragilidades sob pena de ser a escolhida por um predador à espreita, uma vez que geralmente é esse o critério adotado na seleção de quem servirá de almoço com mais facilidade. Para tanto, o papagaio aprimorou a capacidade de suportar a dor provocada por doenças e limitações. Consegue manter-se incólume, aparentando estar visualmente saudável, mesmo debilitado. Isso pode acarretar inclusive uma morte súbita, sem causas aparentes, tamanho é o acúmulo e ocultação de enfermidades.
Pois é exatamente como o papagaio que boa parte de nós, policiais, nos comportamos. Muitos acreditam que acumular dores diversas, não as externando, é requisito básico para ser um policial combativo, o famoso “cana dura”. Esse modelo mental baseado em uma valentia equivocada nos leva a mascarar descompassos importantes que deveriam ser trabalhados, sem rodeios ou engodos. A manutenção da saúde física e mental do policial, profissão que está nas listas de mais perigosas e mais estressantes, deve ser encarada com maturidade pelo agente. Boa parte da sociedade crê que a baixa remuneração e as escalas apertadas sejam os grandes vilões causadores de estresse, ignorando, como em um iceberg, tudo abaixo da linha do visível. Então eu lhe conto o que nem imagina, vamos lá.
Responder a processos por atuações em serviço, mesmo aquelas amparadas por excludente de ilicitudes como a legítima defesa, não exime o policial de constituir advogado pagando do próprio bolso e do desgaste em arcar também com cópias (a famosa xerox), além da perda de folgas em reuniões com advogados e participação nas audiências. Ser ameaçado de morte por criminosos é algo comum, normalizado. Em um país sério, tal ato é tido como exceção e tratado com rigor, e não incluso nas “atribuições” de um policial como cá nas nossas terras. Os acertos, infinitamente maiores do que os erros, não são devidamente valorizados, ao passo que os insucessos, mesmo os menores, sustentam todo um ecossistema de oportunistas que se utilizam disso como trampolim ideológico ou político, destacando-se a imprensa tendenciosa, políticos, movimentos sociais e até mesmo alguns superiores das mesmas instituições onde operam. Descredibilizar e atacar a atuação policial virou esporte nacional praticado e reproduzido por parte da sociedade doente. Atuar em locais insalubres, lidar com toda a desgraça que o ser humano pode produzir e ter uma resposta imediata e precisa acerca de qualquer uma das milhares de leis que integram o extenso e complexo sistema legal desse país é obrigação. Aguardar por horas em uma delegacia a fim de consumar uma prisão em flagrante, muitas vezes rompendo o seu horário regulamentar, pagando o preço por um sistema que não privilegia o ciclo completo de polícia; morar e conviver rodeado por criminosos faccionados em regiões conflagradas pelo narcotráfico são apenas alguns fatores irremediavelmente estressantes enfrentados pelos policiais.
Antes que você reproduza aquela velha e batida frase, “está ruim? Então procure outra ocupação”; digo que o puxão de orelhas nesse artigo vai para nós mesmos, policiais. Não ignore os sinais, irmão, não espere o caldo entornar, pense nas pessoas que lhe amam de verdade. Daremos a vida sim, se necessário for, mas não devemos entregá-la de bandeja para os nossos próprios demônios.



