Como diria Protágoras: “O homem é a medida de todas as coisas”; ou seja, cada indivíduo interpreta a realidade à sua própria maneira. O que é verdade plena e irrefutável para um, pode não ser para outro. Um pequeno deslize plenamente justificável para um, como pegar uma caneta da empresa, pode não ser aceito por outro indivíduo que possui apenas um programinha pirata no seu notebook.
O marco zero da honestidade, onde o sujeito não mentiria ou trapacearia em hipótese alguma, mesmo que sua vida estivesse em jogo, é um ponto inalcançável e meta até injusta para um reles habitante desse planeta. Vivemos em um conflito permanente entre o nosso grau de desonestidade, sinalizado nessa régua balizadora da moral e dos bons costumes, e o desejo de nos vermos como pessoas honestas, boas e até caridosas. Invariavelmente, o produto dessa equação é a relativização, afinal de contas, é só uma caneta extraviada da empresa, só uma mídia pirata, só uma furadinha de fila, ninguém irá morrer por conta disso, não é mesmo? A verdade é que buscamos o tempo todo nos beneficiar de certa pitada de desonestidade, sem, no entanto, correr o risco de sofrer danos irreparáveis em nossa autoimagem.
O relativizar, em se tratando da desonestidade, apresenta-se de várias formas, sob várias máscaras. Talvez a mais palatável e até aceita por boa parte da sociedade seja a prática Robin Hood. Temos uma tendência a contemporizar a trapaça altruísta, por isso alguns se regozijam ao ver um caminhão roubado por criminosos, levado para dentro da comunidade, e relegado ao saque de moradores da favela. Somos tão hipócritas, lembrando que a hipocrisia é a irmã da desonestidade, que pesquisas comprovam redução significativa na chance de trapaça quando o objeto em questão é dinheiro em espécie. Desviar um grampeador, uma caneta e um lápis da empresa não é o mesmo que subtrair uma nota de dez reais, isso segundo a construção social baseada no simbolismo representado pelo dinheiro.
No teste da carteira perdida, por exemplo, observou-se que, estando vazia (sem dinheiro), ela foi devolvida em 33% das vezes. Quando o mesmo teste é realizado com dinheiro no seu interior, o número de devoluções sobe para 50%. Prova do custo psicológico ao se perceber como ladrão e como isso compete com a satisfação de ter o valor inesperado.
Por outro lado, quando furamos a nossa bolha protetora da moral e dos princípios, passamos a apresentar uma inclinação maior para a trapaça, para a desonestidade. Furar uma fila, não devolver um troco errado, registrar o ponto falso, simular doença para não trabalhar; nos leva a romper com padrões aceitáveis. Trata-se do fenômeno “que se dane”, idêntico ao que se manifesta quando você quebra uma longa dieta de doces e chuta o balde, passando a afrouxar o padrão de vigilância.
Afinal de contas, qual é o seu nível de desonestidade? Em qual altura da régua moral está o seu nome? Lembre-se, a honestidade conosco mesmo deve ser o ponto de partida para uma vida minimamente digna e realizada. Como disse certa vez o filósofo grego Sócrates: “Uma vida não examinada não merece ser vivida.”




