Em se tratando de campanha eleitoral, parece que o óbvio sempre tem que ser dito.
Então, vamos lá: nem todo discurso bonito carrega boas intenções. A política sempre foi terreno fértil para grandes oradores, pessoas capazes de convencer multidões com palavras bem escolhidas, emoção na medida certa e uma aparência quase inquestionável de autoridade. Aristóteles, um dos homens mais sábios da história da humanidade, pai da teoria da comunicação, já explicava que a persuasão acontece pela combinação de três elementos: “ethos, logos e páthos”. O ethos é a credibilidade, quando alguém convence pelo currículo, pelos títulos, pela fama ou pela posição social. O logos é a lógica, externada por meio de números, dados, estatísticas e argumentos aparentemente racionais. Já o páthos é a emoção, tratando-se da capacidade de despertar medo, esperança, indignação ou entusiasmo.
Segundo Carmine Gallo, autor do livro “Ted – falar, convencer, emocionar”, uma apresentação poderosa costuma ter cerca de 65% de páthos, 25% de logos e apenas 10% de ethos. Em outras palavras: emoção convence mais do que fatos. Por isso, muitos políticos investem menos em propostas concretas e mais em criar narrativas capazes de tocar, de impactar profundamente o eleitor desavisado. Os melhores oradores conhecem esse artifício, por isso são inquietos, ousados, inconformistas. Desafiam padrões e contam histórias que geram identificação imediata. Histórias vendem ideias.
Some-se a isso o peso dos recursos visuais. Estudos mostram que uma pessoa lembra cerca de 10% de uma informação ouvida depois de três dias. Mas, quando há imagens fortes, vídeos bem produzidos e símbolos emocionais, essa lembrança pode saltar para 65%. Agora você sabe o porquê de as campanhas políticas investirem milhões em marketing, fotografia, edição de vídeo e redes sociais.
Talvez uma das maiores dificuldades para quem tenta enxergar além do discurso seja justamente o perfil de muitos articuladores do poder. Frequentemente, eles vêm das camadas mais altas da sociedade. São ricos, cultos, eruditos, admirados publicamente e, muitas vezes, vistos como exemplos de sucesso ou filantropia. Isso cria uma barreira psicológica; ninguém gosta de acreditar que pessoas tão respeitadas possam agir movidas por ambição, interesses ideológicos ou projetos de manutenção de poder.
Abra o olho! Uma fala emocionante não substitui caráter; cultura não é sinônimo de honestidade; inteligência não garante compromisso com o povo e carisma jamais deve valer mais do que transparência. Enfim, desconfie de quem domina perfeitamente as palavras, mas evita respostas claras. Observe menos o espetáculo e mais as atitudes.


