Vez ou outra me deparo com debates sobre a tal da felicidade; trata-se de um tema fascinante. Afinal de contas, o objetivo último de todo ser humano é encontrá-la, depois de garantida a sobrevivência, claro. Porém, a amplitude que a palavra “felicidade” traz em si mesma é condizente com a individualidade humana. Cada habitante deste planeta possui a sua própria interpretação do que é ser feliz. É como se fosse uma digital, algo único. Por esse motivo, muitos se surpreendem ao tomar conhecimento de que boa parte dos moradores das regiões carentes responde positivamente quando questionada se é ou não feliz.
Esses que não acreditam ser possível encontrar o “Santo Graal” da felicidade em ambientes desprovidos de conforto patrimonial, de dinheiro mesmo, jamais compreenderão a plenitude desse sentimento. Despertar para essa verdade eleva o indivíduo a outro patamar e o conduz para a trilha do bem-fazer, independentemente das circunstâncias.
No morro, tive o prazer de conhecer várias almas elevadas. Mesmo diante de todas as dificuldades, do abandono estatal traduzido, principalmente, pela presença policial, único tentáculo do Estado visível e atuante naquelas regiões, a solidariedade e a cumplicidade entre os moradores têm força suficiente para multiplicar a felicidade. O bate-papo na porta de casa, com todos sentados nas escadarias; o pagode no boteco de uma porta; o auxílio coletivo ao menor sinal de necessidade de um dos vizinhos; o sorriso largo, mesmo carregando compras na cabeça escadarias acima; tudo isso são manifestações de bem-estar completamente incompreensíveis para os escravos do patrimônio.
Por óbvio, todo ser humano, inclusive este que vos escreve, de alguma forma almeja e busca o conforto proporcionado pelo dinheiro. Mas almas elevadas desenvolvem a capacidade de gerar recompensas emocionais e sentimentais, mesmo diante das dificuldades que se erguem à sua frente como um muro aparentemente intransponível. O grande filósofo grego Epiteto nos ensina que a felicidade não é uma coisa que podemos comprar, ganhar ou receber de presente das mãos de alguém. Alcançá-la requer um autoaperfeiçoamento constante, alicerçado em valores, virtudes e sabedoria. Algo realmente difícil, sabendo que a filosofia moderna tem como pano de fundo o individualismo: primeiro eu; o resto é o resto.
Não romantizo a pobreza nas comunidades periféricas, nem tampouco relativizo o sofrimento alheio. Mas não posso negar que já sinto saudades das gargalhadas contagiantes das moradoras lá no alto do morro, fruto de um bate-papo que, para os habitantes da selva de concreto, do asfalto lá embaixo, não teria a menor graça.



