A insistência de uma parte considerável da sociedade em manter a classificação da guerra urbana observada neste país como crime corriqueiro, habitual, opondo-se ferozmente a categorizá-la como ações de guerrilha urbana e terrorismo (o que realmente é), faz-nos lembrar aquela máxima popular: tem penas iguais às de uma galinha, tem bico igual ao de uma galinha, bota ovos como galinha, cacareja como galinha, mas não é galinha.
Essa brincadeira sem graça ilustra perfeitamente o estado de anestesia moral que tomou conta desses indivíduos. Fecham-se os olhos para a barbárie desmedida e sem controle em prol de convicções falidas. Rompemos o ponto máximo; o ponteiro do insuportável já treme no vermelho. Contudo, infelizmente, nos habituamos a minimizar a escalada da violência com um simplório “não tem jeito, vida que segue”.
As mudanças de estratégia do crime organizado invariavelmente atingem os mais pobres, aqueles que não têm voz. Por conta disso, muitos dão de ombros, no ritmo do salve-se quem puder, entendendo ainda não serem diretamente afetados. Mas, aos poucos, o nível da água está subindo, alcançando a todos: pretos, brancos, amarelos, ricos ou pobres.
Em se tratando de estratégias dos narcoterroristas, a que ganhou corpo recentemente no Rio de Janeiro é o sequestro de dezenas de ônibus do transporte coletivo, ao mesmo tempo, com o objetivo de usá-los como barricadas móveis. Ao menor sinal de intervenção policial nas áreas conflagradas, verdadeiros estados paralelos, os criminosos passaram a bloquear dezenas de vias com os próprios ônibus e caminhões de coleta de lixo. Além das barricadas tradicionais, fixas, posicionam os veículos de modo a bloquear completamente o fluxo em vias sensíveis, estratégicas para a “defesa” do território.
Retirando as chaves da ignição e esvaziando os pneus, os faccionados produzem um efeito retardador considerável no avanço das forças de segurança. Desobstruir a passagem sem danificar os coletivos leva tempo, o suficiente para as movimentações defensivas e/ou ofensivas por parte dos traficantes.
Outro absurdo fresquinho, bem recente, são as valas gigantescas cavadas pelos traficantes nas vias de acesso, isolando completamente suas áreas de influência do resto do mundo. Não estou falando de um simples buraco; são verdadeiras trincheiras com cerca de um metro e meio de profundidade.
Para finalizar o ranking de aberrações, narro uma descoberta do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE). Os policiais identificaram, nas barricadas de acesso à comunidade da Cidade Alta, integrante do Complexo de Israel (área de influência do Terceiro Comando Puro TCP), verdadeiros carros-bomba. Artefatos explosivos sofisticados, com acionadores por controle remoto, acondicionados em veículos roubados e utilizados como barricadas: coisa de filme de guerra.
E assim seguimos: sem soluções práticas, definitivas, vivendo de fantasias, forçando a crença de que “prender não resolve”, “mais escolas e menos presídios”, “ressocialização para todos” e outras tantas baboseiras. Enquanto isso, do outro lado da trincheira, o terrorista está matutando a próxima novidade perversa em sua caminhada pela estrada de sangue.



