Esses dias, ao folhear digitalmente o jornal O DIA, deparei-me com duas reportagens revoltantes em uma única página. Até aí, nada de anormal em se tratando de Brasil, nação sequestrada por uma sensação de desamparo irreversível, acostumada a escândalos e violência sem limites. Mas, naquela página policial, chamou-me a atenção a evidente conexão entre causas e consequências, mesmo não havendo qualquer ligação física entre os fatos.
De início, agora com o compromisso de comprovar a interconexão entre os absurdos noticiados, vamos ao ocorrido no bairro da Taquara, Zona Oeste do Rio de Janeiro, quando um professor de Educação Física foi agredido por alunos. Segundo relatos, o tumulto teve início durante o campeonato interclasse, oportunidade em que o professor atuava como árbitro durante uma partida de futsal. Ao apitar a marcação de uma falta, o docente foi cercado pelos alunos e agredido. Funcionários da escola tentaram apartar a briga. O caso está sendo apurado, e os culpados foram suspensos preventivamente.
Algo que, em um passado não tão distante, era inimaginável, tornou-se notícia de página policial. Professores são questionados, aviltados e agredidos, vítimas de um sistema que optou por permutar a autoridade, depositando no próprio aluno imaturo quase todo o crédito pela sua autoconstrução moral. Culpa, em grande parte, de um plano nacional de educação permissivo e alargado em seus freios e contrapesos. Parece não haver mais espaço para a referência forte, inquestionável, quase sacrossanta, do Mestre.
A segunda reportagem traz um ocorrido em São João de Meriti, Rio de Janeiro. Tingida por cores ainda mais fortes de crueldade, relata a morte do adolescente Luiz Guilherme, de apenas 16 anos, esfaqueado covardemente ao tentar evitar o roubo do celular de uma amiga, quando ambos caminhavam em direção à escola. O autor, identificado como Fabricio Mateus da Silva, de 26 anos, preso logo após o crime, ostenta uma ficha criminal com mais de dez anotações, estando em liberdade há pouco mais de um mês.
Uma execução cruel, praticada por um criminoso contumaz que deveria estar preso, dado o seu histórico criminal recente. Enredo repetido, fruto da permissividade jurídica travestida de ressocialização, uma das responsáveis por aberrações como essa, na medida em que coloca na rua precocemente criminoso que não reúne a menor possibilidade de manter relações sociais saudáveis com os demais seres humanos.
Agora, atentemos às duas ocorrências. A causa: falência do sistema de ensino formal, importante célula de construção primária dos valores e princípios que deveriam nortear a vida da criança e do adolescente. A escola, um dos vértices do triângulo juntamente com a família e a igreja, responsável por oferecer bases firmes para o cidadão iniciar a caminhada pela estrada da vida com o mínimo de direção, deixou de ser o berço sagrado do saber, da transmissão de conhecimento. Professor agora é mero servidor. Não há mais o fluxo rígido “emissor para receptor”. Na verdade, o aluno, outrora receptor, passa a assumir o protagonismo diante do medo imposto aos docentes, reféns de um sistema apodrecido por teorias disfuncionais que nunca provaram sua eficácia.
A consequência: vidas sem rumo, crimes violentos, vidas inocentes ceifadas em função da erosão das bases do sistema de freios e contrapesos, fundamental em qualquer sociedade minimamente equilibrada e saudável. Criminosos com dezenas e até centenas de anotações criminais, “filhos” da desestrutura familiar e da subversão da lógica pedagógica rígida. Por óbvio, a prática dos crimes econômicos é uma escolha, mas é inegável que a ausência da família, da escola e da igreja pesa, e muito, nessa equação.



