No dia 20/05/26, jornais de grande circulação do RJ repercutiram um vídeo divulgado nas redes sociais, no qual duas jovens, com os cabelos raspados, repetiam em voz alta a frase: “Nunca mais vou dar golpe na favela”. O vídeo foi produzido por criminosos que as acompanhavam a bordo de um veículo, proferindo ameaças e coações. Esse crime cruel, digno de contos da Idade Média, reforça a tese do estado paralelo que vigora em vários pontos deste país, locais onde narcotraficantes assumiram funções típicas do Estado.
Eles investigam, julgam, condenam e executam penas cruéis, tudo à luz do dia, diante de uma sociedade anestesiada, que passa a normalizar tais condutas, muitas vezes até mesmo comemorando as punições. Afirmam que a única lei que funciona é a “lei da quebrada”, confirmando, de forma deprimente, a falência do Estado e do próprio pacto social.
A resposta oficial diante de um episódio que ganhou repercussão nacional resumiu-se a uma nota informando que a Polícia Civil irá investigar o caso. Só isso. Nenhum pronunciamento contundente, nenhuma mobilização política e, pior, nada daquela costumeira indignação pública de autoridades e personalidades que não se furtam a proferir discursos emocionados em defesa da democracia, dos direitos humanos e da proteção das mulheres desde que o caso não envolva narcotraficantes, como neste episódio.
Nem mesmo a nossa digníssima primeira-dama da República, que se autointitula uma espécie de embaixadora da luta contra a violência doméstica, a mesma que, dia sim e outro também, está nos veículos de comunicação de massa, com os olhos marejados, bradando para que “os homens parem de nos matar”, deu um pio sequer. O silêncio é ensurdecedor.
Pelo que parece, existem vítimas que geram comoção nacional, ao contrário de outras, às quais é destinado o silêncio. E nós sabemos o porquê disso. Caso desconheça, eu lhe conto: denunciar determinadas violências, principalmente aquelas praticadas por narcotraficantes faccionados, implicaria, por tabela, admitir que os criminosos se tornaram poderes paralelos em diversas regiões do país. Algo tão desconfortável, politicamente falando, quanto admitir que a tal “defesa da soberania”, outra balela que gritam aos quatro ventos quando lhes é conveniente, não passa de uma mentira, mais um engodo, na medida em que boa parte do território nacional já não pertence mais ao Estado constituído.
As duas jovens do vídeo podem até ter cometido crime, mas deveriam responder perante a lei, dentro do devido processo legal. Além disso, nunca é demais lembrar que os mesmos “castigos” são destinados a pessoas de bem, idôneas, que, porventura, cometam algum deslize ou façam algo que desagrade os criminosos. No império do medo, nos reinos medievais em que se transformaram as comunidades sob o jugo dos faccionados, a “lei” alcança a
odos. Contudo, seus fundamentos não atendem à coletividade, mas sim à vontade insípida do “dono do morro”. Gostando ou não, o fato é que a palavra “soberania” não consta no dicionário do morador dessas áreas dominadas pelo narcotráfico.


