Dentre as notícias que atraíram a minha atenção na última semana, destaco aquela que relata ataques de tubarões em praias de Recife. Um deles ocorreu na Praia de Boa Viagem e o outro na Praia de Piedade, com apenas alguns dias de intervalo entre ambos, vitimando uma criança de 11 anos e uma jovem de 19 anos, respectivamente. As duas tragédias tiveram como consequência lesões gravíssimas que culminaram na amputação de membros.
Após lamentar profundamente o ocorrido, passo a fazer aquilo que se tornou frequente em minhas reflexões: questionar o comportamento humano. Ora, uma pergunta ecoou na minha cabeça desde então: como as pessoas continuam entrando no mar, mesmo sabendo do risco de ataques de tubarão naquelas praias, algo sinalizado por placas e amplamente noticiado pela imprensa? Somados esses dois últimos casos, chegou a 70 o número de ataques registrados naquela pequena faixa litorânea desde 1992.
Pois bem, a resposta encontrada para esse fenômeno aparentemente inexplicável de desobediência às regras mais básicas de sobrevivência, regras estas que trouxeram a humanidade até aqui, foi algo perfeitamente comparável à percepção de boa parte da sociedade sobre o tema segurança pública. Vamos, então, a essa resposta.
O primeiro ponto é a aparente sensação de baixo risco individual. Afinal de contas, milhares de pessoas entram naquelas praias todos os dias e nada acontece. Perceba que é a mesma lógica adotada por vítimas de assaltos, quando ignoram solenemente os riscos decorrentes de determinados comportamentos descuidados ou mesmo da permanência em locais inadequados. A ilusão do “comigo nunca acontecerá” é o ingrediente em comum, tanto nos acidentes com tubarões em Recife quanto em vários casos de assalto, por exemplo.
Outro elemento encontrado ao buscar compreender esse fenômeno, é a ideia de que benefícios imediatos costumam pesar mais do que riscos raros. Assim como o ataque de tubarão é visto como improvável, e os benefícios de usufruir daquele mar maravilhoso parecem compensar o perigo, o descuido com a segurança pessoal e patrimonial muitas vezes é trocado por um prazer superficial e momentâneo. Estacionar o carro em um local ermo durante um show, ou frequentar um ambiente de alto risco atraído por uma mulher bonita, porém desconhecida, pode parecer tentador e perfeitamente compensatório para algumas pessoas.
Não poderia deixar de fora desta breve reflexão o famoso “excesso de confiança”. Muitos seres humanos apresentam a tendência de construir, equivocadamente, uma lógica de domínio da situação. Essa sensação de controle das circunstâncias pode ser traduzida, no caso dos ataques de tubarão, por certezas como: acreditar conhecer os horários de maior risco, imaginar que esses acidentes só acontecem com surfistas ou com banhistas que se aventuram para além da faixa de areia.
Talvez esse seja o fenômeno mental mais fácil de transportar para o campo da segurança pública. O excesso de confiança, extraído de certezas erroneamente construídas, produz vítimas dos mais diversos crimes. Acreditar que saber identificar locais de risco, perfis de vítimas preferenciais ou situações propícias ao crime confere a certeza de não ser vitimado é acreditar em uma matemática inexistente.
O ser humano, na verdade, é repetitivo e previsível em seus comportamentos, seja ao avaliar os riscos de um ataque de tubarão, ao tentar evitar ser vítima de um assalto ou até mesmo ao atravessar uma rua. Daí a importância de flexibilizar as próprias convicções, mantendo a mente aberta e estando disposto a ouvir e acolher outras opiniões.


