Carochinha, em Portugal, é o diminutivo de carocha, palavra utilizada para designar diversas espécies de baratas e besouros. É também o nome da personagem fictícia que cantava à janela para atrair pretendentes. No Brasil, porém, a expressão “conto da carochinha” adquiriu uma conotação pejorativa: refere-se a uma mentira contada de forma tão detalhada e convincente que acaba enganando muita gente.
Geralmente, aqueles que articulam um conto da carochinha destinado a iludir as massas são extremamente habilidosos em conferir à narrativa uma aparência de verdade inquestionável, enganando até os mais desconfiados. Para que o engodo alcance o sucesso esperado, o loroteiro convoca os sentimentos mais nobres do ser humano, como o senso de justiça, a caridade, a solidariedade e o sonho de igualdade para todos.
Os loroteiros modernos contam ainda com fiéis escudeiros nos veículos de comunicação e nas mídias digitais, sempre ávidos por notícias que prometam soluções imediatas para os desesperançosos, muitas vezes, mesmo sabendo que divulgam informações contaminadas pelo vírus da carochinha.
Mas chega de rodeios. Vamos a alguns exemplos de lorotas que você, nobre amigo ludibriado, talvez ainda acredite serem soluções mágicas para problemas complexos da sociedade.
A primeira delas é a famigerada descriminalização da posse e do uso de drogas, frequentemente apresentada como a solução definitiva para pôr fim à guerra do tráfico. Trata-se de um grande conto da carochinha, desmentido por experiências internacionais que levaram governos a rever suas próprias políticas. O estado do Oregon, nos Estados Unidos, reverteu a legislação e voltou a criminalizar a posse de drogas apenas cinco anos após descriminalizá-la. A Colúmbia Britânica, no Canadá, encerrou seu projeto antes mesmo de implementá-lo plenamente. Portugal, Vancouver, no Canadá, e a Holanda também iniciaram processos de revisão de suas políticas de flexibilização da posse e do uso de drogas.
Os motivos são, em essência, os mesmos: consumo ostensivo em espaços públicos, aumento da percepção de insegurança, baixa adesão voluntária aos programas de tratamento e agravamento dos problemas relacionados à dependência química, entre outros.
Outro clássico conto da Carochinha é o slogan de que “prender não resolve”, defendendo o desencarceramento em massa como solução para a criminalidade. Seria possível escrever um livro inteiro refutando essa ideia. Autoridades e formadores de opinião convencem parcela significativa da sociedade de que prender menos reduziria a violência. Mas o que dizem os estudos?
Uma ampla pesquisa conduzida por David Roodman, baseada na revisão de dezenas de estudos sobre encarceramento, concluiu que o desencarceramento tende a produzir efeito líquido próximo de zero sobre os índices de criminalidade, enfraquecendo significativamente a tese de que reduzir prisões seria, por si só, uma política eficaz de segurança pública.
E o que dizer da taxação de grandes fortunas? O famoso discurso de “tirar dos ricos para dar aos pobres” parece, à primeira vista, uma proposta nobre e justa para enfrentar as desigualdades sociais. Entretanto, a realidade costuma ser bem mais complexa.
Os recursos não saem diretamente do bolso dos mais ricos para o bolso dos mais pobres. Antes, passam por um intermediário faminto: o Estado. Dos 38 países que integram a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), apenas cinco ainda mantêm um imposto sobre grandes fortunas. Países como Áustria, Alemanha, Dinamarca, Finlândia, Holanda e França abandonaram essa modalidade de tributação após constatarem sua baixa efetividade, além dos efeitos associados à migração de pessoas de alta renda e, consequentemente, de capitais.
Se você não deseja se tornar mais um hipnotizado pelos loroteiros da carochinha, procure sempre consultar mais de uma fonte antes de formar sua opinião. Quando a esmola é grande demais, convém desconfiar. Afinal, como ensina a velha sabedoria de boteco: não existe almoço grátis.



