Neste momento, estou degustando o livro Maestria, de Robert Greene. As obras de Greene são daquelas que você pode pegar sem ver a capa e, certamente, irá gostar do conteúdo; não tem erro. Em Maestria, ele afirma que, para superar os limites do nosso potencial e alcançar a prateleira da excelência, deveríamos combinar, de forma harmônica, a intuição com os processos racionais.
Nessa condição, adquirimos poderes instintivos próprios dos animais, aliando-os à vantagem conferida pela consciência humana. Daí surgem os mestres em suas respectivas áreas de atuação, investidos da mais alta capacidade intelectual após anos de imersão em seu campo de domínio. Bobby Fischer, grande mestre do xadrez, referiu-se à capacidade de antecipação mental das jogadas da seguinte forma: “Era como se visse campos de força que lhe permitiam prever todo o decurso do jogo.”
Por outro lado, os seres humanos insistem em desprezar essa condição transcendente, muitas vezes fechando os olhos para tal capacidade e agarrando-se firmemente à única forma lógica de pensar: a racionalidade. A razão nos é confortável, na medida em que oferece a “segurança” sequencial por sua própria natureza: vemos a ação ou o comportamento “A” e deduzimos a causa “B”.
Somente os mestres desenvolvem uma sensibilidade intuitiva em relação ao todo. Eu tive a honra de exercer o meu ofício ao lado de alguns deles e, hoje, cito o Sargento Passos. Para mim, apenas Renatinho.
Certa vez, lá pelos idos de 2011, quando operávamos na ROTAM, embarcados em uma das antigas viaturas Blazer, com uma equipe composta por quatro policiais, presenciei uma manifestação da intuição, do tirocínio em sua mais pura essência. Enquanto patrulhávamos o bairro Castelo Branco, no município de Cariacica, região acometida por profundas carências, onde o crime encontrava facilidades em razão da imensidão de becos e vielas, ouvimos uma música funk em volume considerável, vinda da parte baixa do bairro. Tratava-se de uma espécie de vale, com acessos estreitos e de difícil locomoção.
Decidimos, então, eu, que era o Cabo Comandante, o então Soldado Passos e o então Soldado Marlon, seguir a pé pelos becos até a origem do som, deixando o Soldado Soares, motorista da viatura, no ponto de partida.
Assim que nos aproximamos, identificamos uma residência provida de laje, onde havia pelo menos quarenta jovens participando de um baile clandestino, o famoso “Mandela”. Quebrando completamente o protocolo recomendado, que seria solicitar reforço para a abordagem, resolvemos, nós três, realizar o cerco. Marlon seguiu pela parte de trás, Passos pela lateral e eu subi as escadas, acessando a laje.
Naquele momento, determinei que o som fosse desligado e emiti a voz de abordagem aos gritos, com o objetivo de transmitir a impressão de que se tratava de uma equipe composta por cerca de dez policiais. Exatamente nesse instante, quando todos obedeciam à ordem e se deitavam sobre a laje, ouviu-se um único disparo de arma de fogo. Um dos frequentadores lançou fora dois revólveres calibre .38, enrolados em uma camisa, ocasionando um disparo acidental, cuja dinâmica jamais conseguimos esclarecer.
Agora vem a melhor parte: a da intuição, o mais puro suco do tirocínio. De quem seria a camisa com as armas, uma vez que havia vários frequentadores sem camisa? Enquanto eu e os militares que chegaram em apoio entrevistávamos todos os presentes na tentativa de desvendar o mistério, eis que Renatinho se aproximou de mim e, quase sussurrando, apresentou uma câmera digital, à época o equipamento mais moderno para registros fotográficos, contendo imagens feitas naquela mesma festa.
E lá estavam os participantes abraçados, todos ainda vestidos com suas camisas, provavelmente no início do Mandela. Bingo. Com a identificação do proprietário da camisa, ele acabou confessando a posse das armas e, assim, foi preso.
Ler esse relato depois de tudo o que aconteceu pode nos levar à conclusão de que, enquanto seres humanos escravos da razão e da lógica, não se trata de algo extraordinário. Mas trata-se. Não é qualquer pessoa que consegue compreender todas as partes envolvidas e conectá-las com a rapidez intuitiva própria dos mestres.



