Vilmar Pereira da Silva, 49 anos. Esse é o nome do cidadão que morreu sentado em uma cadeira de rodas no interior de uma UPA do Recanto das Emas, Distrito Federal, no dia 20/06/26. Segundo a responsável pela unidade, Vilmar não aguardava atendimento médico; tratava-se de uma “pessoa em vulnerabilidade social” que cultivava o hábito de pernoitar na recepção.
Apesar de já ter ouvido essa classificação destinada às pessoas invisibilizadas, confesso que, desta vez, a tristeza foi maior do que a costumeira. Não posso afirmar com certeza, mas é possível que a proximidade da aposentadoria do serviço operacional tenha trazido consigo uma espécie de reflexão final, um resumo de tudo o que vi e vivi ao longo da minha jornada.
Nas últimas semanas, além da morte do Sr. Vilmar, alguns acontecimentos insistiram em bater à porta da revolta que carrego dentro de mim. Muito bem trancada durante a maior parte desses 30 anos, agora, na reta final da carreira, sinto-me fraquejar e permitir que ela se abra com maior frequência.
Um dia desses, em uma festa de aniversário, ao ouvir o refrão da icônica música “Até Quando Esperar”, da banda Plebe Rude, que diz: “Com tanta riqueza por aí, onde é que está? “Cadê sua fração?”; fui retirado deste plano, como se tivesse desligado a consciência por alguns instantes. Enquanto todos os presentes se divertiam sob luzes coloridas e intensas, meus olhos ficaram vidrados diante da exibição mental de uma espécie de clipe que, obviamente, só eu via. Nele, conectaram-se várias passagens da minha vida: pessoas sofridas, pobres, invisíveis, mas resilientes e, apesar de tudo, até felizes.
Recordo-me da cena de crianças que havia visto dias antes descendo a Rua Tenente Setúbal, no Morro do São Benedito. Todas descalças, empurrando bicicletas sucateadas e muito menores do que elas. Mesmo assim, sorriam de canto a canto e gritavam, como de costume: “Moraes, me dá uma lanterna!”. A molecada sempre nos parava à noite e pedia para manusear as nossas lanternas de serviço, brincando inocentemente e apontando os feixes de luz para os cantos dos muros e becos. Compramos lanternas e distribuímos para várias delas. Um objeto simples, mas recebido como se fosse um videogame de última geração.
Houve espaço nesse clipe para um carro-pipa também no Morro do São Benedito, no ano passado (2025), em razão da falta de água na parte alta da comunidade. Naquela oportunidade, fardado e completamente suado após apertar a bandidagem do morro, sentei-me em um banco de cimento e viajei por alguns instantes, observando aquela cena triste. Quando vim para a rua após a formatura do Curso de Soldado, no longínquo ano de 1996, o primeiro lugar em que pisei foi justamente o São Benedito. E adivinhe: faltava água. Ou seja, são quase 30 anos sem o básico.
Fiz o meu trabalho, o melhor que pude nesses quase 31 anos de polícia, e me parabenizo por isso. Mas confesso que, nessa reta final, falta alguma coisa. Continua incompleto. O desejo de melhorar a vida das pessoas que sofrem na periferia parece que nunca será alcançado. A verdade é que quase ninguém se importa.
O amparo social, as oportunidades, o saneamento básico, as condições dignas de moradia… uma lista interminável de carências que nunca chega ao fim. Diferentemente do que muitos idiotas gritam aos quatro cantos, reprimir o crime é fundamental; são dimensões que não se excluem. Contudo, a quase completa ausência do amparo social agrava esse cenário. Enquanto discutimos estatísticas, ideologias e narrativas, Vilmar Pereira da Silva morreu sentado em uma cadeira de rodas, invisível até para quem passava ao seu lado. Enfim, nada muda.


