Tenho alguns exemplos marcantes no serviço público e, entre todas as qualidades que reconheço nessas pessoas, a que mais me encanta é a servidão. Uma qualidade que remete aos tempos em que questões ideológicas eram menos presentes no cotidiano institucional e o nome do profissional do serviço público era levado a sério: servidor público.
A servidão, aqui, não é subserviência. É a capacidade de compreender que a função pública existe para atender o cidadão, e não o ego de quem ocupa o cargo. É uma das qualidades mais cativantes que alguém pode ter, porque revela o quanto a participação social de uma pessoa pode fazer diferença em toda a sociedade.
Quando a servidão é bem exercida, ela transforma todo o processo de decisão institucional. Quando uma ideia é lançada, um projeto é iniciado ou mesmo na rotina diária das instituições, o “servir” precisa ser a ideia basilar. É esse espírito que faz com que cada decisão, cada procedimento, cada política pública seja, em última instância, validada pelo cidadão.
O pensamento de servir reorganiza a lógica do poder: em vez de termos estruturas voltadas para autoproteção, autopromoção ou privilégios, passamos a ter instituições comprometidas em harmonizar a relação entre quem tem o dever e quem é beneficiado pelo serviço bem executado. Não se trata apenas de eficiência administrativa, mas de coerência ética.
Por outro lado, quando o propósito se desvia e passa a ser direcionado para benesses pessoais ou de grupos específicos, com fins escusos, o resultado é previsível. Em algum momento, tudo tende a desmoronar — como um castelo construído sobre areia. Nada fica escondido por muito tempo no serviço público: cedo ou tarde, o cidadão percebe, a confiança se rompe e a instituição paga o preço.
É nesse cenário que resta a nós, servidores públicos reais, a árdua missão de resguardar esse valor. Não como um discurso bonito, mas como prática diária. Precisamos cuidar dos nossos propósitos diuturnamente, revisar nossas motivações, confrontar nossos próprios interesses para que estejamos sempre alinhados ao bem servir.
Nenhum interesse divergente desse princípio pode vigorar em nossas instituições. Se a lógica do “se servir” substitui a lógica do “servir”, a degradação é apenas uma questão de tempo.
Resgatar a servidão como princípio basilar não é romantismo saudosista; é condição de sobrevivência institucional. Sem esse eixo, qualquer discurso sobre modernização, tecnologia ou eficiência administrativa será apenas maquiagem.
Que a aura do progresso, a verdadeira, aquela que melhora a vida do cidadão, permeie nossas decisões. E que, ao final de cada dia, possamos responder com honestidade a uma pergunta simples, mas incômoda: hoje, eu servi ao público ou apenas ocupei um cargo público?



